Archive for January, 2010

Dizer que o teu olhar me perturbou, é pouco.

Dizer que o teu olhar me perturbou, é pouco.
Ainda era menina quando todas as tardes depois de saír da escola, percorria a cidade para ter aulas de música,com a flor branca nos cabelos de tranças.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Com minha cachorrinha, andava pelas ruas ainda empoeirada cidadezinha do interior onde nasci, rodeada de gente conhecida,primos,tios e compadres de meu pai… tinha medo, e esse medo fazia ficar em segredo coisas que ninguém imaginava.

Era uma menina, apenas isso.E sonhava…
Abraçava a caixa com as notinhas musicais como quem abraça um tesouro.Lá havia uma caneta,um caderninho onde eu escrevia minhas anotações e meus sonhos…

Eu via ele sem que ninguém me visse. Ele povoava meus pensamentos nas letras de música que eu criava e observava em silêncio,tudo que eu fazia,era como um amigo invisível.

Nunca me atrevi a dizer um nome,um olá, bastava eu saber que podia ver ele sempre que fechava os olhos e com o tempo fui vendo ele de olho aberto mesmo…

Apesar de menino já tinha esse olhar que ainda hoje me fascina,o olho de mil cores que eu criei.Ora,azul,castanho,mel,verde…sei lá.

O tempo fez com que eu perdesse o medo, mas continuo sem saber no que está a pensar.

Quando chegava na casa da professora,ela abria o piano,tirava a toalhinha de crohê num ritual diário e por consequente para mim era poético.Antes de realizar,eu já sabia de antemão tudo que viria a seguir.

Tenho saudades daquela menina que atravessava a cidade para aprender a tocar, e que murmurava baixinho, vezes sem conta, que queria ser uma boa escritora.

Fechavas os olhos e desejava isso, mais do que tudo.

Um dia consegui ouvir a voz, e descobri o segredo. Não me contive, agarrei a mão com força,uma na outra e a caneta presa entre os dedos entrei no teu olhar e disse que tinha a certeza de que com minhas palavras abraçaria o mundo. Pensei que ia me assustar, mas não, foi a primeira vez que consegui falar que eu amava a música mas não podia tocar. Nesse instante soube que aquilo que estava a dizer seria verdade.

Quando ouço tocar uma música parece que tudo pára e só existe ela. Nesse momento eu volto a ser aquela menina que desejava em segredo ser um grande escritora, e que tocava piano para fazer sorrir o pai.

Voltei a reencontrar muitos anos depois daquelas idas e vinda da casa da professora,com o mesmo sonho em que você vivia para a música e eu vivia para escrevê-la. Não me reconheci, e ainda hoje não te disse quem eu era.

As letras e poesia nunca sairam da ciaxinha de letras,o violão,o piano,até o acordeon sentiram as notas e meu pai disse que sentiram minha falta… Talvez nesse instante ele tenha feito eu me recordar algo que nunca consegui descobrir o que era, e não deixei acontecer.Mas eu cantei…na rua mesmo quando lembrei e dancei,como eu fazia pelas ruas da minha cidadezinha do interior,com a flor branca nos cabelos de tranças.As pessoas à volta acharam graça, e eu não conseguia parar de olhar para você,lá atrás,no passado à procura daquele menino que sempre fez parte do meu mundo, sem o saber.

Teu rosto agora assemelha-se a um pássaro, a música te libertou, mas o mundo te prendeu.

Dizer que o teu olhar me perturbou… é pouco.

Sobretudo

Lá fora esta chovendo.

Aqui dentro também

Lá fora cai uma chuva mansa, como se São Pedro finalmente tivesse chegado a um acordo com São Paulo e por isso resolveu não inundar mais a cidade.

Aqui dentro cai uma tempestade. Não há água, mas há vento e raios, um ciclone rodopia em minha mente e me traz lembranças

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

A chuva La fora me remete ao tempo da infância perdida; na infância perdida eu vibrava quando chovia muito e caia gelo.

O gelo era frio.

Mas eu adorava pegar.

O frio me lembra garoa.

A garoa era aquela chuva teimosa, que aqui em São Paulo era chamada de “chuva de molhar trouxa”.

A chuva de molhar trouxa me lembra a capa de chuva de meu pai, que também tinha um sobretudo…

E, sobretudo, eu sobrevivi…

Sobrevivi às pancadas inexplicáveis de meu pai até que, um dia, um dia eu escolhi as ruas…

Aí, sobretudo, sobrevivi às ruas, ao frio e à fome, ao medo, ao abuso e à criminalidade…

Aí, sobretudo, veio Fátima, aquela a quem vós chamais “puta”…

Sobretudo, Fátima foi Santa.

Deu-me casa.

Meu deu carinho.

Deu-me amor

Deu-me roupas.

Deu-me sapatos

E, sobretudo, me deu um emprego.

Ai, quando viu que eu, sobretudo, continuaria, Fátima sumiu…

E, sobretudo, eu sobrevivi novamente…

Sobrevivi à sua desaparição…

Sobrevivi ao amor/ódio de Teresa, que me levou duas filhas sem deixar rastros..

Sobrevivi a isso, como quem sobreviveu, sobretudo, à mil mortes…

Mil mortes eu morri e, sobretudo, mil vezes ressurgi…

Depois veio, finalmente, a desgraça.

E pensei que, finalmente, não sobreviveria e, sobretudo, mais uma vez, sobrevivi.

Sobrevivi ao ódio sem explicação.

Sobrevivi à repulsa.

Sobrevivi ao preconceito.

Fiz uma elegia à minha própria loucura e, sobretudo (!!!!) sobrevivi!

Lá fora a chuva continua a mesma, perene e tépida.

Mas aqui dentro a Tempestade desabou, varreu móveis, me bateu contra as paredes e alçou-se em Viração…

Mas, sobretudo, eu sobreviverei…

É só, e apenas só, mais um dia…