Sobretudo

Lá fora esta chovendo.

Aqui dentro também

Lá fora cai uma chuva mansa, como se São Pedro finalmente tivesse chegado a um acordo com São Paulo e por isso resolveu não inundar mais a cidade.

Aqui dentro cai uma tempestade. Não há água, mas há vento e raios, um ciclone rodopia em minha mente e me traz lembranças

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A chuva La fora me remete ao tempo da infância perdida; na infância perdida eu vibrava quando chovia muito e caia gelo.

O gelo era frio.

Mas eu adorava pegar.

O frio me lembra garoa.

A garoa era aquela chuva teimosa, que aqui em São Paulo era chamada de “chuva de molhar trouxa”.

A chuva de molhar trouxa me lembra a capa de chuva de meu pai, que também tinha um sobretudo…

E, sobretudo, eu sobrevivi…

Sobrevivi às pancadas inexplicáveis de meu pai até que, um dia, um dia eu escolhi as ruas…

Aí, sobretudo, sobrevivi às ruas, ao frio e à fome, ao medo, ao abuso e à criminalidade…

Aí, sobretudo, veio Fátima, aquela a quem vós chamais “puta”…

Sobretudo, Fátima foi Santa.

Deu-me casa.

Meu deu carinho.

Deu-me amor

Deu-me roupas.

Deu-me sapatos

E, sobretudo, me deu um emprego.

Ai, quando viu que eu, sobretudo, continuaria, Fátima sumiu…

E, sobretudo, eu sobrevivi novamente…

Sobrevivi à sua desaparição…

Sobrevivi ao amor/ódio de Teresa, que me levou duas filhas sem deixar rastros..

Sobrevivi a isso, como quem sobreviveu, sobretudo, à mil mortes…

Mil mortes eu morri e, sobretudo, mil vezes ressurgi…

Depois veio, finalmente, a desgraça.

E pensei que, finalmente, não sobreviveria e, sobretudo, mais uma vez, sobrevivi.

Sobrevivi ao ódio sem explicação.

Sobrevivi à repulsa.

Sobrevivi ao preconceito.

Fiz uma elegia à minha própria loucura e, sobretudo (!!!!) sobrevivi!

Lá fora a chuva continua a mesma, perene e tépida.

Mas aqui dentro a Tempestade desabou, varreu móveis, me bateu contra as paredes e alçou-se em Viração…

Mas, sobretudo, eu sobreviverei…

É só, e apenas só, mais um dia…

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