Archive for the ‘Depressão’ Category

cinco anos, quinze anos, quem sabe?

O que pensa um homem que vê sua psiquiatra dizer :
É, parece que desta vez os danos são sérios…
Isso a que ela se refere, são os danos no cérebro, onde o HIV se aloja e fica numa espécie de santuário, inatingível por remédios…
La ele cresce, floresce, viceja e destrói.
Não os neurônios mas, sim, outras células que ligam os neurônios uns aos outros.
Que me resta fazer?
Sorrir.
Sorrir um sorriso maroto, debochado; isso na frente dos outrsos pois, quando na solidão, eu choro.
Quanto tempo doutora?
Não sei, ela diz, cinco, tlvez quinze anos, mas os últimos serão muito difíceis…
Silêncio de tumulo no consultório e eu:
Maktub.
Com o anos assisti “Melodia Imortal” e disse à minha mãe que eu morreria daquela forma.
E ela:
Que forma:
Uma morte longa, triste, dolorida e que fariam muitos sofrerem…
Levei uns tapas por isso e, embora os tapas tivessem me calado, a previsão estava feita
A consulta foi ontem, segunda feira, e ela pediu uma ressonçância magníetica para confirmar o obvio.
Meu esrros de digitação não são erros de digitaçãos
São erros do meu cérebro e eu já desisti de usar o corrrretor ortográficos…
Cinco anos, talvez quinze
E como será o final
Não quero nem imaginar

A euforia acabou. E eu estou quase completo…

p align=”justify”>Hoje eu não vou postar.
Vou repostar.
É um texto do Rubem Alves que muito me encanta porque tem tudo a ver comigo.
Eu vivo em busca de me compeltar para, assim, poder morrer em paz.
Para tudo há tempo e hora determinada, está na B´blia, e taçvez meu tempo e minha hora já estejam próximos.
Acho que em vinte anos eu me completo.
Aí desejarei morrer…

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"Eu havia colocado no toca-discos aquele disco com poemas de Vinícius e do Drumond, disco antigo, long-play, o perigo são os riscos que fazem a agulha saltar, felizmente até ali tudo tinha estado liso e bonito, sem pulos e sem chiados, o próprio Vinícius, na sua voz rouca de uísque e fumo, havia recitado os sonetos da separação, da despedida, do amor total, dos olhos da amada.

Chegara finalmente o último poema, meu favorito, "o haver" – o Vinícius percebia que a noite estava chegando, tratava então de fazer um balanço de tudo o que se fez e disso, o que foi que sobrou? Por isso as estrofes começam todas com uma mesma palavra, "resta…" – foi isso que sobrou.


Resta essa capacidade de ternura, essa intimidade perfeita com o silêncio…
Resta essa vontade de chorar diante da beleza, essa cólera cega em face da injustiça e do mal entendido…
Resta essa faculdade incoercível de sonhar e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas tomam por esperança…

Começava naquele momento a última quadra, e de tantas vezes lê-la e outras tantas ouvi-la, eu já sabia de cor as suas palavras, e as ia repetindo dentro de mim, antecipando a última, que seria o fim, sabendo que tudo o que é belo precisa terminar.

O pôr-do-sol é belo porque as suas cores são efêmeras, em poucos minutos não mais existirão.

A sonata é bela porque sua vida é curta, não dura mais que vinte minutos. Se a sonata fosse uma música sem fim é certo que o seu lugar seria entre os instrumentos de tortura do diabo, no inferno.

Até o beijo…beijos eternos...

Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca?

O poema também tinha de morrer para que fosse perfeito, para que fosse belo e para que eu tivesse saudades dele, depois do seu fim. Tudo o que fica perfeito pede para morrer.

Depois da morte do poema viria o silêncio, o vazio. Nasceria então outra coisa no seu lugar: a saudade. A saudade só floresce na ausência.

É na saudade que nascem os deuses – eles existem para que o amado que se perdeu possa retornar – que a vida seja como o disco, que pode ser tocado quantas vezes se desejar.

Os deuses – nenhum amor tenho por eles, em si mesmos. Eu os amo só por isso, pelo seu poder de trazer de volta para que o abraço se repita. Divinos não são os deuses. Divino é o reencontro.

A voz de Vinícius já anunciava o fim. Ele passou a falar mais baixo.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada, ela virá me abrir a porta como uma velha amante…

E eu, na minha cabeça, automaticamente me adiantei, recitando em silêncio o último verso: ".. Sem saber que é a minha mais nova namorada."

Foi então que, no último momento, o imprevisto aconteceu: a agulha pulou para trás, talvez tenha achado o poema tão bonito que se recusava a ser uma cúmplice do seu fim, não aceitava a sua morte, e ali ficou a voz morta do Vinícius repetindo palavras sem sentido: "sem saber que é a minha mais nova"…"sem saber que é a minha mais nova"…"sem saber que é a minha mais nova…"

Levantei-me do meu lugar, fui até ao toca-discos, e consumei o assassinato: empurrei suavemente o braço com o meu dedo, e ajudei a beleza a morrer, ajudei-a a ficar perfeita.

Ela me agradeceu, disse o que precisava dizer, sem saber que é a minha mais nova namorada… Depois disso foi o silêncio.

Fiquei pensando se aquilo não era uma parábola para a vida, a vida como uma obra de arte, sonata, poema,coreográfico. Já no primeiro momento quando compositor, ou o poeta ou o dançarino preparam a sua obra, o último momento já está em gestação. É bem possível que o último verso do poema tenha sido o primeiro a ser escrito por Vinícius.

A vida é tecida como as teias de aranha: começam sempre do fim. Quando a vida começa do fim ela é sempre bela por ser colorida com as cores do crepúsculo.

Não, eu não acredito que a vida biológica deva ser preservada a qualquer preço.

“Para todas as coisas há o momento certo. Existe o tempo de nascer e o tempo de morrer" (Eclesiastes 3, 1s)”.

A vida não é uma coisa biológica. A vida é uma entidade estética. Morta a possibilidade de sentir alegria diante do belo, morreu também a vida, tal como Deus no-la deu – ainda que a parafernália dos médicos continue a emitir seus bips e a produzir ziguezagues no vídeo.

A vida é como aquela peça. É preciso terminar.

A morte é o último acorde que diz: está completo. “Tudo o que se completa deseja morrer".

Ruben Alves

 

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