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Sem descompasso no coração

Se eu tivesse de definir o dia numa cor, eu diria: Cinza.

Não apenas porque o Sol vem a furto e a medo, mas, também, porque o meu sol interior parece estar apagado.

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Para quem trabalha por conta própria, por injunções que não vou elucidar aqui, o mês de Janeiro é sempre tenebroso, porque o trabalho falta e a verba também…

Minha única alegria, minha esposa, hoje está trabalhando e a casa parece um deserto de proporções incognoscíveis… Eu saio do micro, eu volto para o micro, eu deito na cama, no chão, no sofá e nada me apraz.

Eu me identifico muito com o Schreck e penso que sou mesmo um Ogro.

Barrigudo e feio eu já sou, só falta ser verde, mas há ogros de muitas cores.

A idéia de me relacionar com pessoas me trás dois sentimentos opostos:

Ansiedade e ojeriza.

Eu preciso conversar, tem com quem falar, mas… mas eu tenho ojeriza do relacionamento.

Relacionamento para mim, apenas o profissional,  especialmente nestes dias cinzentos em que a hora não passa.

Alceu Valença escreveu assim:

“A solidão é fera, a solidão devora, e amiga das horas prima irmã do tempo, fazendo nossos relógios caminharem lentos, causando um descompasso em meu coração”.

Muitas vezes me sinto assim, numa solidão tão absoluta que eu penso que posso ouvir os movimentos infinitesimais do Universo!…

Hoje não almoçarei.

Não comerei nada.

Não quero pilotar fogão e muito menos sair de casa (ver pessoas) e ir comer na padaria.

Vou ficando por aqui, na companhia da fera, com meu relógio caminhando lento, mas sem um descompasso em meu coração